Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Este Natal, como já repararam, virei-me para os musicais. Sobretudo os que fazem parte da minha infância e adolescência. Hoje acredito que só as crianças até aos 5, 6 anos achem piada a estas histórias, afinal não têm personagens assustadoras nem se destroem objectos de forma espectacular. Mas é um engano pensar que O Feiticeiro de Oz, por exemplo, não é assustador e violento, de uma forma muito subtil. Foi assim, pelo menos, que o senti quando o vi a preto e branco na televisão. E quando o revi a cores, já adulta, a sensação desconfortável permaneceu.

 

Eis um musical cheio de mensagens, na velha tradição dos contos infantis: o bem e o mal, ultrapassar o medo, enfrentar os desafios. Há uma fada madrinha e uma bruxa má, um feiticeiro que todos temem, e até três personagens que representam, cada uma delas, uma qualidade, embora cada uma delas ande à procura de uma outra qualidade: cérebro, coração e coragem. A rapariguinha revela-se muito corajosa, como provavelmente todas as crianças desejariam ser, e vai enfrentando com criatividade e determinação, os desafios desse caminho.

 

Interessante descobrir-se no final do caminho que, afinal, o feiticeiro que aterroriza a imaginação dos habitantes de Oz é apenas uma ilusão. Não deixa de ser significativo que as grandes ilusões sejam mantidas assim, pelo espectáculo da maquinaria do poder, como um grande circo, um grande palco, uma grande arena, muito barulho e ruído, tudo repetido maquinalmente. O Feiticciro de Oz dá o título ao musical, não se esqueçam.

 

 

 

 

 

E afinal as qualidades que os companheiros de aventuras da rapariguinha pedem ao Feiticeiro de Oz não lhes podem ser dadas por ninguém, têm de ser descobertas pelos próprios. Neste caso, cada um deles tem uma qualidade e todos juntos reúnem as qualidades necessárias, o poder está portanto em si próprios, não lhes vem do exterior.

 

A mensagem que aqui deixo hoje é: podemos escolher entre deixarmo-nos embalar pela ilusão, a falsa esperança, os sorrisos de plástico da publicidade, as vozes maviosas de circunstância, ou procurarmos a realidade por trás desses painéis, das luzes e do ruído, a vida real, as pessoas reais, as emoções e os sentimentos genuínos. Escolher entre negar o medo, ou encará-lo de frente. Escolher entre admirar os falsos ídolos ou ter a coragem de aceitar a nossa fragilidade. E descobrir que afinal o poder está em cada um de nós e na nossa capacidade de nos juntamos por objectivos comuns. Não é esse um dos significados do Natal?

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:16

Valores humanos fundamentais: a autonomia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.12.12

O último valor humano fundamental desta série que aqui coloco a navegar neste rio, nesta época de reflexão, é a autonomia. O primeiro foi a liberdade. Mas da liberdade à autonomia tivemos de passar pelos outros valores que a formam: responsabilidade e bondade, ou simples empatia, respeito pelo próximo.

No fundo, autonomia é próprio da maturidade do adulto, que já aqui colocámos a navegar. A autonomia é a resposta da maturidade, é a atitude da responsabilidade. Não depende de pressões ou orientações de outros, depende apenas da consciência do próprio. O adulto autónomo põe os valores da vida em primeiro lugar e só depois considera as outras variáveis.

 

A autonomia é esse patamar, por isso é que existe uma diferença entre liberdade e autonomia: a liberdade é dada ou conquistada, a autonomia é aprendida e ensaiada pelo próprio. Esse ensaio é a fase da rebeldia, a adolescência.

Neste The Little Foxes, igualmente dos anos 40, e que já está a navegar neste rio a propósito da linguagem do poder, vemos como uma rapariguinha aprende com o pai a atitude correcta do respeito pelos outros e ensaia o caminho da autonomia. Vemos a sua coragem ao enfrentar a mãe e o seu ascendente manipulador. A cena final das escadas, a mãe que olha para baixo, para a filha, e esta que olha para cima, para a mãe, é simplesmente extraordinária. É um William Wyler, não esquecer.

Por momentos pensamos que a rapariguinha vai ceder, tão triste pela morte do pai, tão subitamente sozinha, mas a sua voz e o seu olhar dizem tudo. Há os que se apropriam do território, destruindo tudo à sua passagem, e há os que ficam a ver. Ela não vai ficar a ver.

Reparem na última imagem da mãe na janela a vê-la partir, com o namorado, duas figurinhas na noite chuvosa. O seu olhar parece mais assustado do que confiante. Quem afinal vai enfrentar a solidão e os fantasmas do passado e do presente é quem se baseia na linguagem do poder, na manipulação e na ganância.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:26

Razões que a razão desconhece - 2

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.06.10

 

Não o vi no cinema, esperei pelo DVD, ou que aparecesse nalgum dos TVCine. Sim, foi assim com este Benjamin Button, a que resisti até a curiosidade vencer. Razões desta resistência não as consigo identificar. Tinha registado dele as imagens em sépia, aquele rapazinho-velho entre talas, a erguer-se e a tentar caminhar. Isso foi na nomeação para os óscares de há 2 anos. Dos filmes nomeados destacam sempre a tecnologia e não a mensagem, a densidade da mensagem, a poesia da mensagem. E este filme revelou-se como uma das minhas mais incríveis descobertas!

 

O primeiro impacto: as pessoas comuns que são tudo menos comuns. A forma como valorizam o essencial. A forma como nunca ficam indiferentes aos outros que com eles se cruzam neste mundo, aceitando sabiamente o que a vida lhes vai revelando. Não é resignação, é outra coisa. Também não é propriamente rendição, é mais aceitação filosófica e tentar aproveitar o melhor de todas as possibilidades. Será essa a aprendizagem de Benjamin Button.

Outro impacto: a incrível poesia que o filme respira, levemente humorística (o raio que insiste em ser atraído por aquele homenzinho sobrevivente; o lado sombrio de um colega de trabalho no rebocador, chamado Grimm; o capitão que insistiu em ser quem era, um artista, não se conformando com o papel que o pai lhe impusera) e intensamente filosófica (a lealdade da amizade, a descoberta do amor, a superação da revolta, a aceitação do inevitável, a rendição final).

 

Este filme vem na linha poética de filmes dos anos 60, mas esta já é uma visão pessoal. Já me referi aqui a um filme que me deixou hipnotizada pela sua simplicidade poética: To Kill a Mockingbird. De como estes filmes dos anos 60 iniciam uma nova sensibilidade em cinema e que estarão na base de um Eduardo Mãos de Tesoura do Tim Burton, ou de um Forrest Gump, ou de um Benjamin Button. Uma nova sensibilidade na câmara, nos planos, nas personagens e nas sequências, na acção, nos diálogos e nos silêncios. Estes filmes vivem muito de silêncios. E as frases são de uma enorme densidade.

Sim, os silêncios. Que aqui são silêncios vivos, sentimo-los como uma atmosfera que vibra. O segredo: a autenticidade das personagens, mesmo que a verosimilhança seja apenas a da própria vida, passar pela vida e sentir que não se viveu, ou seguir um sonho e ter de o abandonar, ou a possibilidade de se redimir de um abandono, ou procurar recomeçar tudo de novo.

 

Benjamin não foge dos seus sentimentos, não foge do sofrimento que os acompanha, e mesmo que a sua vida guarde essa armadilha da solidão e do desencontro, na verdade ele vive-a no encontro e na comunicação. Aceita-a filosoficamente, aprende com as experiências e as pessoas que a vida lhe traz até à casa a que chama a sua casa.

Esta foi a grande aprendizagem transmitida pela mãe. Esta é a sua mãe e não poderia ter sido outra. Verá mais tarde uma fotografia de uma mulher lindíssima. Histórias paralelas que soam tristes e longínquas. Libertar-se-á de todas as histórias como uma doce despedida. 

 

Sim, se pudesse sintetizar este filme, escolheria: doces despedidas. São todas despedidas doces, nem demasiado dramáticas nem demasiado distantes: deixar-se ir.

 

Ainda há muito a dizer da descoberta deste filme. Mas fica para amanhã...

 

 

Ainda sobre Benjamin que alguns seus próximos lhe dizem ser muito especial... lembrou-me vagamente outra personagem, o Larry d' O Fio da Navalha de Somerset Maugham. Por outra razão que a razão desconhece. Ambos são especiais no sentido de diferentes na forma como vivem e interagem com os seus semelhantes, de uma forma sempre amável com todos mas autónoma, que não lhes pesa. Só que Larry é impermeável à influência de outros a não ser à de um mestre espiritual que conhece na Índia salvo erro, e Benjamin é completamente permeável às aprendizagens e às experiências. É aliás isso mesmo que o torna tão querido pelos outros. É isso também que o leva a entender os outros como se estivesse na sua pele, e aqui lembro-me de Acticus a explicar à filha de como se adquire a empatia, essa capacidade necessária para entender e conhecer os nossos semelhantes, aqui referindo-se a Boo.

 

Jogar com o tempo é sempre atractivo para criaturas que vivem obcecadas em travá-lo a todo o custo. A recente obsessão civilizacional, tudo controlar, o prazo de validade e a aparência de juventude. Será assim com a bailarina, até porque a carreira de uma bailarina é muito curta, como Benjamin lhe diz para a consolar. Quando se perde a linha nunca mais se recupera, é a frase terrível, mas uma manhã ela promete-lhe deixar de ter pena de si própria.

 

A obsessão pelo controle é muito português, sobretudo o controle de outras criaturas, penso até que essa obsessão estará na origem de muitos desvios de comportamento e de muita agressividade oculta nas relações interpessoais. Há demasiada interferência na vida uns dos outros. Mesmo nos locais de trabalho, sente-se esta necessidade de controlar outros, exercer o seu poder, e sobretudo mostrar a outros que se é poderoso ainda que numa ínfima escala ou que, no final de contas, se trate de um poder alucinado. 

A origem desta lógica doentia? A relação maternal, demasiado protectora? Não me parece que seja explicação suficiente, mas a protecção esconde realmente a necessidade de controlar a criança, não a deixa crescer, respirar à vontade, sufoca, cria dependências. É uma forma de impedir a autonomia e que dá sempre em revoltas estéreis ou rebeldias inconsequentes. Também esconde o desejo oculto de parar o tempo e manter-se no mesmo papel de poder sobre as criaturinhas.

Já me estou a desviar claramente do Benjamin mas não resisti a deixar-me levar por esta hipótese de explicação possível para a grande incidência de perturbações psiquiátricas na população portuguesa, o tema fascina-me. E esta ideia do controle não andará muito longe de uma explicação possível. Afinal, não é um dos países com mais telemóveis por habitante? E não vemos nós os nossos semelhantes pendurados ao telemóvel a toda a hora?

Outra razão que pode estar relacionada (ou não) com a necessidade de controle é ser um povo muito territorial, muito cioso do seu quinhão, da sua propriedade, mesmo que isso o impeça de se mover ou mesmo que isso o obrigue a voltar. Quando os entrevistam lá fora invariavelmente surge o termo saudade, como um sentir falta do seu lugar, da família, dos amigos.

 

Voltando ao Benjamin, amar a sua família e os amigos não o impede de dar a volta ao mundo e estar receptivo ao que a vida lhe traz, uma nova família e novos amigos (as pessoas que vêm morar nos quartos alugados, os colegas de trabalho no rebocador, a mulher inglesa que conhece num hotel em Murmansk). Aqui tudo parece natural, fluir, sem interrupções de sentido, nem fracturas na sua base, mesmo que os bem-amados partam, alguns subitamente, as tais doces despedidas. E mesmo nessa despedida tão difícil, porque surge da necessidade de libertar a mulher e a criança de mais um peso, um velho-criança, acontece porque tem de acontecer.

 

A construção da narrativa é também engenhosa, um narrador duplo: Benjamin no diário, e a filha, que o lê a uma mãe próxima da doce despedida final.

Talvez Benjamin me venha revelar mais alguma razão oculta para me ter impressionado e comovido. As palavras não são suficientes para as revelações mais interessantes. Sabemos isso mas ainda não inventámos melhor forma de comunicar. Bem, o cinema já é uma melhor forma de comunicar, não é?

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:03

"Il y a longtemps que je t'aime / Jamais je ne t'oublierai..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.02.10

 

É esta canção infantil que acompanha uma das cenas finais do filme The Painted Veil. Um Somerset Maugham a navegar neste rio...

 

Podemos pegar no filme por diversos ângulos:

- como uma jovem mulher troca uma prisão emocional (a mãe, sobretudo) pelo desconhecido;

- como aprender a viver e a amar implica uma densidade emocional dolorosa... as desilusões pelo caminho... e a pena de ter magoado quem nos amou;

- como são complexas as pessoas: imprevisíveis, nada parecidas com os teus micróbios;

- como é possível a descoberta do amor e da paz depois da maior violência e indiferença.

 

Tentarei pegar pelos diversos ângulos possíveis, mas antes de tudo, gostava de falar da leveza, dessa leveza que surge na maior densidade  e intensidade emocional. É essa leveza que torna a vida suportável.

Também foi essa leveza que salvou a jovem mulher: sou uma pessoa normalíssima que gosta de passear, ir a festas, dançar, dir-lhe-á ela. É com essa atitude simples e despretensiosa que ela encara a terrível decisão que o marido a obriga a assumir. É também assim que se tenta aproximar dele, apesar da sua rejeição e desprezo. E finalmente fazer qualquer coisa, tornar-se útil de alguma forma. Mesmo que a realidade não seja nada leve ou a ideal, ela prefere ver a parte que permite melhorar a vida das pessoas.

 

Finalmente ficamos também a saber que não são tão diferentes como julgavam, há pontes que se descobrem, uma paz que desconheciam. Esperávamos um do outro o que não podíamos dar... transforma-se nessa aceitação tranquila do que o outro é e faz, de como tenta fazer o melhor possível.

 

Numa época como a nossa, de grande superficialidade e frivolidade, este filme é uma sacudidela emocional para quem o quiser ver, realmente ver. Há um caminho que se percorre, as personagens erram, enganam-se, tentam redimir-se. É esse caminho difícil, aprender a viver e a amar, crescer afinal.

 

E aqui posso retomar o fio à meada: uma jovem mulher quer libertar-se da frieza de uma mãe que não a leva a sério e não a aprecia. Este homem aparece do nada, um bacteriologista, que quer ir para a China distante. Um homem decidido e apressado. A decisão é tomada sem pensar duas vezes. E o cenário já é outro, um outro universo. De certo modo, foi uma fuga que a levou a decidir.

 

Sim, aprender a viver e a amar é sempre um caminho doloroso, emocionalmente exigente, há uma densidade e intensidade emocional que deixa marcas, há desilusões garantidas, muitos erros a lamentar como o maior de todos: magoar quem não queríamos magoar.

 

A complexidade das pessoas não é visível num microscópio, como ela lhe dirá, a imprevisibilidade, os erros, e depois a tentativa de acertar de novo, de ser útil, de fazer o que é possível.

 

Em linguagem do cinema, não posso dizer que o filme seja muito original ou particularmente brilhante. Destacam-se a fotografia, a música, algumas cenas, os actores...

Mas é um Somerset Maugham, o escritor de personagens enigmáticas que se revelam depois, tal como na vida real.

A mim comoveu-me, a sério! Já não é muito frequente um filme conseguir comover-me. E já não há muitos filmes assim, a tratar dos assuntos da vida e dos afectos, da lógica e da falta dela, de circunstâncias adversas ou coincidências felizes, de personagens vulneráveis, com esta intensidade e densidade.

 

É o segundo Edward Norton que aqui está a navegar, um actor também ele enigmático e com uma inexplicável presença nos filmes em que aparece. Nesse outro vale vemo-lo obcecado  por uma adaptação, um papel numa sociedade que não entende, e por uma família instantânea.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:55

Valkyrie, uma possibilidade de redenção?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.01.10

 

Valkyrie surgiu na minha vida muito recentemente num dos canais da TVCine. E desde a primeira vez que o vi (já o revi duas vezes), senti que estava a ver um documentário em tempo real. Agora sei porquê. Conseguiram filmar nos locais exactos onde tudo aconteceu. Essa emoção passou, está lá, no filme, nos actores que vestiram a pele das suas personagens. Há uma energia intensa neste filme, uma electricidade, não sei explicar melhor.

Valkyrie lembra-nos a resistência de alguns oficiais, que tudo arriscaram para salvar vidas, e a Alemanha, antes da destruição final.

 

Valkyrie foi uma operação essencialmente militar concebida de forma brilhante. Tratava-se da utilização, com algumas alterações fundamentais, de um programa de emergência de protecção do governo nazi. Todos os passos foram minuciosamente respeitados, nada foi deixado ao acaso. Mas foi o elemento humano que a comprometeu. (Não admira que o seu alvo, o psicopata no poder, se julgasse protegido por um poder divino! Inúmeras tentativas e saiu sempre ileso.)

 

O momento mais forte do filme? Talvez o breve encontro do coronel Stauffenberg com Hitler, para conseguir uma assinatura. E a frase: É preciso perceber Wagner para entender o nacional-socialismo...

O momento mais comovente? A execução dos oficiais, um a um, em frente do pelotão de fuzilamento.

Mas teria sido realmente possível controlar todas as variáveis? Valeu a pena tentar, valeria sempre a pena tentar.

 

Fui tentada a imaginar a Europa se a operação Valquíria tivesse sido bem sucedida. Quantas vidas se teriam poupado, a começar pelos campos de concentração, o próprio desfecho da guerra teria sido diverso, não teria havido a divisão da Europa em Leste e oeste, o muro de Berlim, as fronteiras teriam permanecido inalteradas.

E sobretudo, a Alemanha teria tido a sua possibilidade de redenção, palavras do coronel Stauffenberg a um colaborador reticente. Redenção embora tardia, e facilmente confundida com o período do desespero,pois já se estava perto do fim: a ocupação de Berlim já parecia inevitável. Mas ainda assim, redenção.

Para a Alemanha do pós-guerra, e mesmo para a actual, este conhecimento, da existência de consciências que não perderam  a ligação à sua humanidade, é fundamental.

 

Aqui a resistência pacífica a uma linguagem bélica como o nazismo, com um pensamento mágico (julgavam-se superiores e invencíveis), revelou-se impraticável.

E é aqui que as grandes questões filosóficas e morais se colocam: como evitar que se continuem a cometer crimes hediondos se esta gente no poder é completamente destituída de uma consciência humana?, se não revelam o mínimo respeito pela vida?, pelas pessoas?, se a sua única lógica é a destruição e a morte?

Este é o dilema. Para os resistentes pacíficos, os políticos intelectuais, a resposta à sua resistência pacífica foi a morte por enforcamento.

A verdadeira coragem tem sempre um impacto que perdura no tempo, permanece muito depois da morte física, sobrevive a todas as linguagens do poder.

 

Confunde-se com demasiada frequência a verdadeira coragem humana com a lógica da morte e destruição: a diferença está que a primeira arrisca a vida para salvar vidas; a segunda apenas concebe a destruição, é a sua única motivação. A primeira ama a vida acima de tudo; a segunda segue a morte, princípios fanáticos, ordens, papéis, sem alma lá dentro.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:21

A atmosfera poética do Cinema dos anos 60

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.01.10

 

Diz-se de quem ama o Cinema que é cinéfilo, mas eu nunca me incluí nessa classificação. Não me considero cinéfila e amo o Cinema.

Não pertenço a nenhum grupo de fãs, não colecciono filmes como alguns amigos, não assino revistas de cinema, não estou a par das estreias e desconheço os nomes dos realizadores e actores mais recentes, uma vergonha.

Mas posso dizer que amo o Cinema, que por ele me deixei fascinar e que ainda me hipnotiza, a sua atmosfera, a sua tonalidade, os diálogos, os sons...

Para mim é um mundo tão real como aquele em que me movimento, e tão vivo como este. Pode soar-vos estranho, uma excentricidade, mas aprendi imenso a ver filmes, aprendi por exemplo que não estamos limitados a esta mediocridade que nos rodeia, que há um mundo possível se o quisermos inventar, onde podemos respirar livremente, viver plenamente.

 

Desde os primeiros musicais que vi a preto e branco até aos épicos, aos westerns, às comédias, que o Cinema me prendeu para sempre. Entrou no filme, diziam de mim lá em casa, pois concentrava-me de tal forma que não ouvia ninguém.

 

Certamente que este To Kill a Mockingbird o terei visto na fase impressionável porque as cenas me pareceram familiares, aquela cidadezinha perdida no sul, os argumentos do advogado Atticus no tribunal em defesa do jovem negro, o ambiente, por vezes sufocante por vezes acolhedor, de um mundo isolado e dividido.

Uma das originalidades do filme é a utilização do narrador a recordar esse verão, em que era apenas uma rapariguinha de seis anos: Scout, filha de Atticus. É pelos seus olhos e das outras crianças, o seu irmão Jem e o primo Dill, que vamos acompanhando aquele caso terrível de ignorância, intolerância e racismo de uma comunidade fechada, no tempo da depressão.

O rapaz negro, injustamente acusado de violar uma rapariga branca, não terá hipótese com um júri formado apenas por brancos. O final já se adivinha, mesmo antes de o sabermos.

 

Atticus é a personagem-herói típica, da natureza dos heróis que apenas cumprem o seu dever, apenas assumem a sua responsabilidade. Dele dirá a sua governanta, sentada nas escadas à porta de casa com as crianças: Há pessoas que fazem por nós a parte desagradável, como o vosso pai.

 

Comoventes algumas cenas: o filho que insiste em acompanhar o pai quando vai dar a má notícia à família. A forma como o vê enfrentar pacificamente a agressividade do pai da rapariga branca. As duas crianças a atravessar o bosque e a ser atacadas por esse homem agressivo, e depois salvas pelo Boo, o homem que consideravam louco e até perigoso. A rapariguinha a pedir ao Boo para se despedir do Jem que dorme, a salvo, depois do ataque que lhe fracturara um braço. O Xerife a decidir não acusar Boo, uma vez que as contas estão saldadas, uma morte pela outra. E a frase mais poética: Seria como matar um passarinho.

 

Se pensamos que há inovações em Cinema, estamos muito enganados. Já foi tudo experimentado. A inovação está simplesmente na tecnologia, nos efeitos especiais. E mesmo que se tente melhorar a técnica, a atmosfera é irrepetível. Não sei explicar isto melhor. Havia uma qualidade no Cinema dos anos 60 que se terá perdido na década seguinte: uma frescura, uma verdade, uma simplicidade, uma emoção que não se sabe de onde vem...

Ou então sou eu que transporto essa vivência só minha para o filme e já não os sei distinguir...

 

Também na utilização do narrador filosófico que nos deixa mensagens, e que agora é frequente em diversos filmes e séries televisivas. Vemos Scout levar Boo pela mão para a casa onde ele vive, isolado, e dizer-nos: Só conhecemos alguém se vestirmos a sua pele por uns tempos... As crianças tinham descoberto um amigo, um aliado, em alguém que tinham considerado louco e perigoso, só porque era diferente.

 

Curiosidades: consegui identificar o Robert Duvall na pele de Boo! Muito mais jovem, claro. Não é fácil, pois o rosto altera-se,  mas há pequenas nuances para alguém muito atento.

Nesta personagem vi de certo modo o Eduardo Mãos de Tesoura de Tim Burton. E na própria atmosfera do filme, sente-se já a antecipação de realizadores actuais que revelam uma sensibilidade semelhante. É como se este Cinema lhes tivesse aberto o caminho, a essa nova sensibilidade.

 

Que mais posso eu dizer sobre esta pequena obra-prima? Que é mais um filme baseado num livro premiado com um Pulitzer. Com um guião muito bem concebido. E uma realização impecável. A fotografia, a montagem, os diálogos, a narração, a banda sonora... de tirar a respiração. E os actores, bem, perfeitos.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:57

A vulnerabilidade e a coragem

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.12.09

 

É véspera de Natal e ela está sozinha. Sentada naquele sofá.

“Estava a olhar para o céu…”, diz a mulher para o homem quando verdadeiramente se reencontram. Ela já embrulhada no xaile branco de renda que ele lhe trouxera de casa da avó.

A vulnerabilidade. Tão injusta. Tudo o que nos pode acontecer. A vida feita de imprevistos.

E a capacidade de olhar a realidade e continuar. A mulher continuou. O homem, paralelamente, continuou. Mas sentiam-se estranhamente incompletos.

Quem não sonha com um final feliz para estes dois? Mesmo que sejam personagens pouco verosímeis! Ou talvez por isso…

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:02

Jane Eyre

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.04.09

 

Jane Eyre fascinou-me na adolescência. Aquelas personagens! A rapariguinha com aquela força de carácter! Parecia mais um espírito andarilho do que uma mulher. E no entanto... tão capaz de paixão e de afectos!
E Rochester... o sombrio Rochester...


Vi recentemente o clássico Jane Eyre com a Joan Fontaine e o Orson Welles. O filme não me impressionou por aí além.
Por isso me agradou tanto ver na Rtp2, e por duas vezes, uma excelente série para televisão. (1) Muito equilibrada, os actores bem dirigidos, as cenas muito bem concebidas. E uma Jane e um Rochester muito comoventes. Aquele final feliz...

Porque me tocou tanto esta Jane andarilha e este Rochester sombrio?
Um Rochester sombrio, preso ao passado, a querer viver o amor... E aquela frase: Não somos do género platónico...
E não são. Os reencontros entre risos e lágrimas, “dois irmãos gémeos”. E a comunicação à distância: Espera por mim...


Acho enternecedora a forma como estas escritoras construíram personagens femininas tão fortes, decididas, cultas e autónomas. E como os homens, enquanto personagens, as aceitam como iguais.
Terá sido assim com Charlotte Brontë ou ter-se-á projectado num futuro idealizado? (2)

Também enternecedora esta filosofia tão feminina da generosidade, da distribuição dos bens por todos, de colocar a família à frente do individual.
E como acaba tudo bem. Jane, Rochester e o filho. E a recuperação de alguma da visão perdida. E a família toda unida, finalmente.
Depois de todas as atribulações, desencontros, solidão, sofrimentos, é assim que eu gosto de ver tratadas as minhas personagens bem-amadas.

 

 

 

 

(1) Série de 2006, realizada para televisão, por Susanna White. A adaptação do romance de Charlotte Brontë por Sandy Welch e magníficos actores nos principais papéis: Ruth Wilson (Jane Eyre) e Toby Stephens (Rochester). Se bem que o Rochester do livro não devia ser tão jeitoso, mas enfim... este Rochester é o mais agradável de todos os Rochester que vi... e assim para sempre ficará ligado, na minha memória, ao Rochester do livro.


(2) Brontë, name of three Englisn novelists – the sisters Charlotte Brontë (1816-55), Emily (Jane) Brontë (1818-48), and Anne Brontë (1820-49) – who's works, transcending Victorian conventions, have become beloved classics. All three, and their brother (Patrick) Branwell Brontë (1817-48), were born in Thornton, Yorkshire... . Their father, Patrick Brontë (1777-1861), who had been born in Ireland, was appointed rector of Haworth, a village of the Yorkshire moors... . In 1824, when their mother died, Charlotte and Emily were sent to join their older sisters Maria and Elizabeth at the Clergy Daughters' School in Cowan Bridge; this was the original in which was modeled the infamous Lowood School of Charlotte Brontë' novel 'Jane Eyre'. … In 1831 Charlotte went to school in Ro Head, returning home a year later to continue her education and teach her sisters. She returned to Roe Head in 1835 as a teacher, taking Emily with her. In 1842, conceiving the idea of opening a small privarte school of their own, and to improve their French, Charlotte and Emily went to Brussels, to a private boarding school. The death of their aunt, who had kept house for the family, compelled their return. Emily stayed at Haworth as housekeeper. Anne bacame governess in a family, where she was joined as tutor by Branwell, who had failed first as a portrait painter and then as a railway clerk. Charlotte went back to Brussels, her experiences there forming the basis of the rendering, in 'Villette' (1852), of Lucy Snow's loneliness, possibly the most terrifying depiction of human isolation in English literature. In 1845 the family was together again. … Each sister then embarked on a novel. Charlotte's 'Jane Eyre' was published first, in 1847; Anne's 'Agnes Grey' and Emily's 'Wuthering Heights' a little later that year. Speculation about the authors' identities was rife until they visited London and met their publishers.... 'Jane Eyre' 's popularity has never waned; it is the most impassioned expression of feminism in English. … (em: Funk & Wagnalls New Encyclopedia, 1979, vol. 4)

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:31

"Vou ali abaixo defender os meus direitos"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.09

 

Esta line do Marlon Brando é já perto do final. On the Waterfront deixou-me uma marca para sempre... e logo à primeira. E já o devo ter visto umas cinco vezes...


Aquela atmosfera só podia ter sido conseguida pelo Elia Kazan. Uma atmosfera densa e tensa, do início ao fim. Em que o próprio ar parece ter electricidade.
As imagens são tão poéticas, mesmo toda aquela zona descaracterizada do porto... e aquele parque... e aquelas ruelas sombrias...
E as personagens... De todas, a mais improvável, o Terry Malloy, promissor lutador de boxe profissional, que podia ter sido alguém, como o próprio dirá ao seu irmão corrupto, ao das apostas e das manobras de intimidação do Sindicato. Improvável, por ter crescido entre mafiosos, com os valores distorcidos, mas que lhes resiste sempre, até ao fim. É certo que, para sobreviver até ali, obedecera sempre ao irmão, mas sem passar os limites. Até perceber que não podia ser neutro.
E é uma rapariguinha saída de um colégio de freiras, que lho vai mostrar. É a coragem e a convicção da rapariga que o irão pôr em acção. A rapariga que aparece na sua vida da forma mais estranha: ele sabia quem lhe matara o irmão, era testemunha de um crime. Mas será apenas mais tarde, com a morte do seu próprio irmão, que avançará com a denúncia dos criminosos.


Todas as cenas no telhado, onde Terry cuida dos pombos, são verdadeiramente poéticas... É como se tudo fosse simbólico: o céu (telhado), a paz (pombos), e lá em baixo... a luta e a morte.
Assim como todas as cenas ao longo do parque... aqueles diálogos poéticos... o que se diz, o que fica por dizer e o que fica suspenso...
Todas as cenas destes dois, tão diferentes, e no entanto, tão milagrosamente próximos. De tal forma próximos que é essa proximidade que os irá transformar. Ele, acordar para a revolta e para a exigência dos seus direitos. Ela, para assumir a sua sensualidade e aprender a confiar no amor.


Também é um Padre, o corajoso Father Barry, que lidera a resistência pacífica destes homens explorados e subjugados. E todo o seu discurso nos dirige para os valores cristãos, ali tão esquecidos. É o pai protector, no fundo, que nunca os abandonará. É interessante ver, antes mesmo da possibilidade de uma nova Igreja sonhada, a de João XXIII, esta Igreja do Father Barry, mais próxima da vida real e dos homens que sofrem. A cena no armazém, depois da morte de um homem que arriscou desmontar o controle do Sindicato, em que o Padre se refere a esse Cristo também ele morto pela verdade e dignidade dos homens, é verdadeiramente comovente.


E chegámos à line do rapaz já homem: Vou ali abaixo defender os meus direitos.
A luta final (e desleal) com o Johnny Friendly deixam-no fora de combate, e é um homem ensanguentado e cambaleante que vemos aparecer, passo a passo, para iniciar um novo dia de trabalho nas docas. Já sem o domínio e controle do Sindicato. Porque só assim os outros homens, que ali trabalham, o seguem.

 

Os homens têm esta marca registada do predador-vítima, esta violência hereditária. E da cobardia que se refugia tantas vezes no grupo e que aceita o inaceitável. E que precisa do sacrifício de uma vítima para acordar.
A dignidade conquista-se, essa é outra das mensagens. Nunca é garantida. (Ainda não é a liberdade como a da estátua, a do símbolo americano, porque um homem livre pode escolher e estes homens estão condicionados à vida das docas).
A dignidade de um trabalho, ainda que simples, mede-se pelo seu reconhecimento e pelo respeito da comunidade, e é um bem precioso. E numa altura em que vemos novas formas de exploração do próximo (e de domesticação) é uma mensagem fundamental.


Há milagres da natureza, como este jovem destinado a uma vida irregular e criminosa, mas cuja sensibilidade, pacífica e leal, o liberta dessa programação.


O amor pode surgir de dois mundos diversos e paralelos: a casca protectora de uma família carinhosa e de um colégio fechado (a rapariga) e um meio hostil e violento onde não há afectos mas apenas manipulação (o rapaz).

 

 

 

Aqui também, a navegar...

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:22

Quando uma natureza bravia e uma natureza pacífica se encontram

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.11.08

 

A força da natureza. A lógica do progresso. Uma ilha incómoda. E a descoberta do desejo, também ele indomável. Um encontro que se revela criativo. Wild River.


Voltei a descobrir este filme, desta vez na RTP Memória. Desde que o vi pela primeira vez que me tocou de uma forma estranha. Como capta a força indomável da natureza, a cor outonal, os sons... E as personagens, os diálogos contidos, os gestos expressivos... Há qualquer coisa de muito terreno, selvagem e poético neste filme! A terra e a alma estão ligadas, na avó da jovem mulher. A própria mulher é um pouco bravia, como aquele lugar. Eu sei que somos muito diferentes, dirá ela ao homem da barragem, que vem para resolver a resistência à abertura da comporta. Talvez... mas a sua paz (a dele) é mais aparente do que real. E às vezes só se encontra a tranquilidade aceitando e vivendo as tempestades interiores (neste caso, são mais chuvadas, está-se em Outubro).

Bem, nesta altura já deu para perceber que o filme me tocou mais do que a maioria dos filmes... Talvez porque o meu lugar é, também ele, assim bravio: montanhas isoladas, de pinheiros bravos e ribeiras tumultuosas... Sim, e perto, uma barragem também, também assim azul...


Voltando ao Wild River: A avó de uma jovem mulher, viúva com dois filhos, recusa-se a sair da ilha onde sempre viveu. Permanecerá ali, teimosamente, até a obrigarem a sair. Vemos, no seu último olhar desesperado para a árvore que cai, que alguma coisa dentro de si também começou a cair... E mesmo que a nova casa também tenha um alpendre, como o homem da barragem quis que fosse respeitado, para lhe agradar... não durará muito, adormecerá na cadeira, nesse alpendre, de desgosto. O empregado fiel aguardará ali perto, talvez porque pressinta o fim. Um pormenor em que só desta vez reparei.


Há momentos verdadeiramente mágicos! Como eram contidos e, ao mesmo tempo, tão intensos, os filmes desta época! E como se conseguiam exprimir emoções e sentimentos de forma tão minimalista. Elia Kazan é exímio nessa atmosfera carregada de desejo. Tudo no ritmo certo, nos gestos, na coreografia. A agitação é interior, está quase a explodir, já a sentimos no ar. Depois desse encontro, ela volta na barcaça. Despedem-se de longe. Vemos no seu sorriso que tudo está diferente. Eles mudaram. E será assim a partir daí. Até ele descobrir que não é assim tão auto-suficiente... que (também ele) precisa dela.
Não é fácil amar-te, dir-lhe-á ela. Mas eu amo-te... eu amo-te... Está à sua frente, tão franca e vulnerável, tão altiva e comovente. Sim, orgulhosa de amá-lo, mesmo podendo perdê-lo. Sei que em breve te vais embora, tinha-lhe dito. Leva-me contigo.


Sim, há qualquer coisa de bravio neste filme. E de poético também. Talvez seja essa a força da natureza, a que o homem pacífico não irá poder resistir. Não apenas se apaixona pela jovem mulher, como aceitará o seu desafio e da forma mais inesperada possível. Talvez por ver como ela o defendeu, como uma gata selvagem, naquela luta em que mais uma vez perde. Gostava, por uma vez que fosse, de ganhar uma luta... Ela diz-lhe que isso não é importante. Ali estão, no meio da lama onde tinham caído, lado a lado. E então o homem pergunta-lhe se quer casar com ele... que ele provavelmente se irá arrepender e que certamente ela se arrependerá... Mais inesperado do que isto é impossível.


Sim, o homem ganha uma família instantânea, como já lhe tinha dito, de forma sarcástica, um dos manda-chuvas do sítio. O mesmo que lhe batera forte e feio. Estes indivíduos exemplificam, na perfeição, a rudeza e a rigidez de alguns lugares provincianos. Também é aqui visível o racismo, em que não há igualdade de tratamento nem de salários. Esse é, aliás, um dos pontos de fricção cultural: o homem da barragem insiste em furar aquelas normas absurdas e paga exactamente o mesmo a todos os que contrata. Aqui também podemos medir a sua coragem na medida inversa à sua habilidade e força física. Torna-se especialista em levar pancada. Sim, podemos medir aqui a sua coragem na forma como se sujeita à violência física, não abdicando dos seus princípios.

 

Em Wild River a natureza está sempre presente. De certo modo, a natureza acompanha as emoções das personagens, as suas tempestades interiores. A fotografia e o som, sempre a lembrar-nos que tudo isso também está a acontecer dentro de nós, uma chuvada, um rio que se atravessa, uma ilha que se abandona, uma árvore a tombar…
O ritmo também acompanha as emoções de muito perto. E mesmo que algumas cenas nos pareçam suspensas no tempo, em que só se sente a respiração das personagens, diríamos que numa linguagem e num tempo mais próprios do teatro (e isso é muito Elia Kazan), ainda assim estamos na linguagem do cinema, no tempo do cinema, quando se cruza com o teatro de forma perfeita.
As personagens e os actores, os actores e as personagens, confundem-se aqui. Lee Remick é a viúva um pouco bravia. Montgomery Clift é o homem pacífico. Jo van Fleet é a mulher da ilha, de um território, raiz de uma árvore ancestral que o progresso arranca sem-cerimónia nenhuma.
A natureza e o progresso, a natureza e o homem, num equilíbrio instável. Em Wild River até a barragem parece ligar-se de forma poética às montanhas que a envolvem. Mas será possível dominar um wild river?

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:48


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D